Blog Ilton Muller

E se fossem restaurantes?

Relatos de uma tentativa frustrada de cursar uma segunda graduação em Gramado e Canela

Pela primeira vez neste espaço, fujo de temas jurídicos para contar uma experiência pessoal, de quem há pouco mais de um ano, por força da pandemia e de questões pessoais, acabou fixando residência em Gramado, primeiramente, e em Canela, depois.
Em março de 2020, a suspensão das atividades presenciais foi obrigatória. Logo depois, o trabalho remoto se tornou uma opção e resolvi apostar numa vida distante da tumultuada Capital dos gaúchos.
O recomendado distanciamento social me fez pensar em frequentar algum curso, em alguma área diferente da minha formação, sem sair de casa. Decidi fazer uma segunda graduação e passei a pesquisar as opções existentes na região.
A primeira instituição de ensino superior que procurei é mais tradicional e oferecia um curso semipresencial, na área da saúde, com apenas um encontro por semana e o restante das aulas e trabalhos em ambiente virtual. Aprovei a ideia.
Fiz a matrícula e, um mês depois, avisaram que “não fechou turma”. Depois, fiquei sabendo que costuma “não fechar turma” mesmo, e isso voltou a acontecer este ano.
Então, procurei uma segunda instituição, menos tradicional, mas bastante conhecida, provavelmente por bons investimentos em marketing, e que tinha uma proposta semelhante de curso.
Após solucionar algumas dúvidas por telefone, quando acenei com a possibilidade de me matricular, ouvi que, a partir de então, o contato seria feito via WhatsApp.
Com o número de WhatsApp, mandei uma primeira mensagem, me apresentando e esclarecendo o motivo do contato. Ninguém respondeu. Meia hora depois, com o objetivo (na verdade, ilusão) de agilizar o atendimento, enviei os documentos necessários para a matrícula, conforme já haviam me informado por telefone.
Duas horas (!) depois, perguntei se os alunos já matriculados recebiam a mesma atenção que eu estava tendo naquele monólogo virtual.
Alguns minutos depois, o atendente questionou o motivo da pergunta – que para mim era óbvio. Expliquei que estava há mais de duas horas esperando um retorno, ao que o atendente respondeu que costuma demorar mais, porque eles não têm apenas dois ou três, mas quinhentos alunos para atender, solicitando várias coisas...
Desisti. 
Talvez a gente vá perdendo a tolerância com o passar do tempo. Como pode ocorrer a qualquer ser humano, estou ficando velho e ranzinza. Mas não é só isto.
Nas duas situações, estava eu lá, empolgado com a possibilidade de ampliar meus conhecimentos, estudar coisas diferentes, assustar meu entediado cérebro.
Mas essas duas instituições revelaram não haver motivo para empolgação e que um novo aluno não é importante para elas. Banalizaram o “não fechar turma” e o “esperar horas para ser atendido”.
Será que eles pensam mesmo que isso é sinal de sucesso? Será que alguém  pensa sobre isso? Ou será que a mera sugestão de pensar sobre o assunto causa algum desconforto?
Não sou da área da educação, nem empreendedor. 
Mas, se costuma “não fechar turma”, não seria o caso de, humildemente, mudar a abordagem e tomar alguma providência para captar novos alunos? 
Certo que há pessoas mais qualificadas para apontar soluções, mas, quando caminho pelas ruas centrais de Gramado e Canela, sou abordado por garçons, por exemplo, para experimentar vários restaurantes. Se não tiver cliente no restaurante, o que acontece com o estabelecimento?
Em outro cenário, havendo muitos clientes no restaurante e poucos garçons para atendê-los adequadamente, não seria o caso de contratar mais garçons, até o ponto de conseguir oferecer o atendimento esperado? O que acontece quando um restaurante, satisfeito com clientes esperando por uma mesa, nada faz para mudar a situação?
Será que isso acontece por ser a maioria dos restaurantes focada no atendimento a turistas, enquanto as universidades da região atendem o público local?
Não quero acreditar nisso – sigo iludido?
Essa desatenção das instituições locais de ensino não me afeta consideravelmente. Já sou graduado, pós-graduado e tenho minha carreira profissional estabelecida há tempo. 
Mas como fica quem está procurando sua primeira graduação, seu primeiro contato com o meio universitário? Essas pessoas, só por residirem aqui, estão fadadas a procurar alternativas em São Leopoldo, Taquara, Novo Hamburgo, Caxias do Sul, Porto Alegre?
Creio que a economia local também perde, pois o aquecimento do setor de ensino certamente resultaria, entre outros benefícios, em mais recolhimento de impostos e criação de vagas de emprego, em nada prejudicando o tão acalentado turismo, que ainda poderia disfrutar da mão-de-obra qualificada formada nessas universidades.
Se alguém encontra satisfação nisso, aceito sem problemas. Mas eu mesmo, sem precisar tanto, esperava um pouco mais.

Tags:Coluna Emerson Pinheiro; Opinião

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