Blog Ilton Muller

Um plano falho

Ao colocar pessoas privadas de liberdade à frente, por exemplo, de trabalhadores da educação, o plano de vacinação contra covid-19 menospreza o que é verdadeiramente essencial.

Com o arrastado avanço da vacinação contra a covid-19, surge, ainda timidamente, uma nova polêmica: a inserção de presos no grupo prioritário, antes de trabalhadores da educação.
Em cidades que sediam estabelecimentos prisionais, como Canela e São Francisco de Paula, essa questão será foco de discussões em breve, se a atual ordem da vacinação for mantida.
Parece que nada mais falta para comprovar que nossos gestores públicos nunca priorizaram a educação. 
O plano operacional de vacinação justifica que o preso “é suscetível a doenças infectocontagiosas, como demonstrado pela prevalência aumentada de infecções nesta população em relação à população em liberdade, sobretudo pelas más condições de habitação e circulação restrita, além da inviabilidade de adoção de medidas não farmacológicas efetivas nos estabelecimentos de privação de liberdade, tratando-se de um ambiente potencial para ocorrência de surtos, o que pode fomentar ainda a ocorrência de casos fora desses estabelecimentos.”
De fato, é possível concordar a priorização dessa fatia da população. Mas, colocá-la antes de trabalhadores da educação é um desafio ao bom senso e ao interesse público que deve nortear as decisões de todo e qualquer governante.
Afinal, os pais “soltos”, mesmo durante a pandemia, precisam sair para trabalhar e deixar seus filhos onde? Na escola, em geral. Até para reduzirem a probabilidade de um dia terem que visitá-los em algum presídio.
Além disso, não é tão simples comparar o risco de infecção entre estabelecimentos prisionais e de ensino, pois as aulas presenciais até pouco tempo estavam suspensas e estão sendo retomadas lentamente, com esquemas de rodízio. 
E, todos sabem, desde o ano passado muitos presos foram beneficiados com prisão domiciliar, com base tão somente nessa possibilidade de contaminação. Ou seja, deixaram de estar realmente presos.
Ainda, há muitos presos do regime semiaberto, que às vezes é chamado de “sempre aberto”, justamente porque esses apenados passam bastante tempo circulando livremente, expostos ao vírus como qualquer pessoa que não cumpre pena – bom lembrar que a tornozeleira eletrônica não tem eficácia comprovada contra o vírus.
Obviamente, os do regime aberto usufruem de liberdade ainda maior. 
Mesmo assim, no plano de vacinação, pessoas que se enquadram nessas situações são contabilizadas como integrantes da “população privada de liberdade”.
Portanto, o plano é falho. Não só por priorizar presos, que muitas vezes nem estão tão presos assim, em relação a professores. É que, por seu inequívoco caráter essencial, o menosprezo à educação causa maior perplexidade. Mas eles também foram colocados à frente de trabalhadores do ramo de transporte coletivo, por exemplo.
Da mesma forma, o plano de vacinação não é atencioso com a peculiar situação de trabalhadores em frigoríficos, onde há maior risco de contágio. Durante o ano passado, houve uma enxurrada de notícias sobre surtos ocorridos nesses lugares. Mais do que em presídios.
Apesar disso, trabalhadores industriais, onde presumo estejam inseridos os de frigoríficos, ocupam o último lugar entre os grupos prioritários.
Enfim, tendo o próprio plano de vacinação excluído a possibilidade de uma estratégia de imunização em massa, poderia ao menos ter valorizado o que é verdadeiramente essencial e prioritário.
Infelizmente, o plano de vacinação contra a covid-19, como está, fere o bom senso e nem de longe atende o interesse público.

Tags:Coluna Emerson Pinheiro; Opinião

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