Blog Ilton Muller

Lisi Berti é o teatro por inteiro

Ela escreve, atua, dirige, ensina… E resiste

Na segunda série do Colégio Marista, nas aulas da professora Inês Lázzari Farias, a menina Lisiane Silveira Berti deu seus primeiros passos na arte teatral. E nunca mais parou. “Adorava encenar e escrever roteiros. Era uma prática minha escrevê-los em cadernos e passar aos colegas e professores para que lessem e escrevessem suas opiniões”, recorda Lisi Berti, que hoje vive o teatro por inteiro. E não se arrepende da escolha.
Ao ser questionada como se define hoje, ela resume: “Em meio a tudo que estamos vivendo, me defino como uma artista resiliente, criativa, explorando múltiplas facetas do fazer teatral e possibilidades. Ainda amo demais a minha arte para abandoná-la. Se fizesse isso, o vírus me ganharia, tenho focado em superar isso. Acredito, ainda, que em breve voltaremos com a velha prática do teatro que consiste em conviver juntos”.
Lisi Berti é uma das artistas mais expressivas e completas da região. É dramaturga com dois livros publicados: "Dona Gorda e Outras Peças" (2013) e "O Menino das Nuvens de Algodão" (2019), além de inúmeras peças.
Lisi Berti ministra aulas de teatro para crianças, jovens e adolescentes, é preparadora de elenco para teatro e cinema, atua e dirige espetáculos e também realiza treinamento empresarial (focado na arte de bem receber, gentilezas, encantamento...). É locutora comercial da Rádio Clube e está à frente do Estúdio de Pesquisa Teatral Lisi Berti, desde 2017, que utiliza o teatro como ferramenta de autoconhecimento. E desde 1994 coordena a Cia de Teatro. “Também pesquiso, desde 2010, o ator e sua verdade com foco na dor como aliada ao processo criativo”, destaca a artista.


Primeiro nasceu a atriz
Apesar de escrever desde a infância, Lisi afirma que a interpretação nasceu antes da direção teatral. “Comecei como atriz mas sem nenhuma pretensão. Gostava muito mais de escrever histórias. Dirigir um espetáculo aconteceu muitos anos depois. Não me via dirigindo e, casualmente, hoje em dia trabalho muito mais como diretora do que como atriz.  a vida e seus ciclos”, destaca.


Os Festivais de Teatro como escola
Os Festivais de Teatro de Canela foram um importante espaço para a formação teatral de Lisi Berti. Ela recorda que primeiro foi como atriz, em 1987. Mas a estreia como atriz e texto próprio ocorreu em  1992 e nunca mais deixou de participar. “Nos últimos anos do extinto festival fui da organização, participava da ATECA - Associação de Teatro de Canela, além de sempre trabalhar nos bastidores. Sempre digo aos meus alunos que é nos bastidores que conhecemos a qualidade de um artista de verdade e como ele se relaciona com todos quando ninguém vê. O Festival foi uma das grandes escolas da minha vida. Aprendi e vi muitos trabalhos incríveis e foi ali que tive a certeza que queria isso para a minha vida”.
No Festival de Teatro foram inúmeros prêmios de melhor atriz, melhor diretora, melhor espetáculo, entre outros. Um dos mais importantes foi em 1992 (“Acampamento Meio Sinistro”), seu primeiro texto premiado, e depois em 1994, seu primeiro troféu como atriz (“O Monólogo de um Velório”). Foram muitos prêmios em festivais amadores regionais e do Estado. Também teve reconhecimento nacional em festivais como em São Paulo, Ponta Grossa e Campo Mourão. “Na época representaram muito para mim, no sentido de saber que meu trabalho tinha muito mais qualidade do que imaginava”, afirma. No entanto, os circuitos de festivais foram aos poucos terminando e ela ingressou em montagens, eventos e alguns festivais internacionais como Peru e Colômbia onde ministrou oficinas. Tem no currículo, também, editais com projetos premiados.


O prazer e desafio de viver da sua arte
Viver exclusivamente da arte é um desafio em qualquer época. E se torna mais difícil ainda durante um período de pandemia em que o segmento cultural é um dos primeiros a ser atingido (e um dos últimos a retomar). “Eu escolhi sair de todos os concursos público e empregos fixos que tinha desde alguns anos e viver da minha arte. Nunca foi fácil, mas sempre foi prazeroso e libertador”, afirma Lisi, destacando que sempre foi desafiador viver e fazer arte no nosso país. “O teatro sempre sobreviveu a todas as calamidades por seu espírito comunitário e libertário. É inegável o impacto da pandemia nas artes cênicas e eventos, porque perdemos o encontro presencial. Nossa arte é presença”,a firma Lisi,que buscou alternativas para se manter ativa e viver da arte. O momento, de adaptações e migração para o online, por exemplo, motivam questionamentos: “Para que a arte serve? Para quem? Me pergunto se a pandemia nos fez mudar nossa condição ou apenas ressaltou o estado alarmante e sucateado que vivemos. Sobrevivemos em meio a um cenário cinza e sem muita perspectiva. Fomos os primeiros a parar e não sabemos quando voltaremos”, questiona e comenta Lisi. Atualmente ela se desdobra entre alguns cursos e textos online, curso de desinibição presencial individual, locuções, nada perto do ideal. Para expressar a sua visão sobre o momento ela cita uma frase do  poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro francês, Antonin Artaud: “O teatro, como a peste, é uma crise que se pode resolver com a morte ou com a cura." E como quem transforma um desafio em aprendizado, Lisi Berti completa: “Eu ainda escolho a cura! Ainda...”

Créditos da foto: Sérgio Azevedo

Tags:Arte & Artistas

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