Publicado em: quarta, 05 de maio de 2021 às 09:35
Em abordagem, fiscal da Fazenda ironiza modelo de celular de indígena
Ele vendia pinhão no Centro da cidade. Líder indígena classifica comentário como racista
Ao comercializar pinhão no Centro de Gramado na tarde de segunda-feira (3), um homem que se identificou como índio, foi ironizado por um fiscal da Secretaria Municipal da Fazenda pelo fato de possuir um celular moderno. O indígena filmou a abordagem e criticou o fato de não poder comercializar a semente em terras que no passado era indígenas. “Sabemos que o pinhão é uma comida indígena e que esta cidade foi ocupada em cima de territórios indígenas”, afirmou ele.
O fiscal argumentou que o comércio ambulante era proibido em Gramado e que os indígenas teriam um lugar próprio para comércio de produtos típicos no Lago Negro. No meio da conversa o fiscal questionou o fato do índio possuir um celular de última geração. “Tem um celular muito bom pra ser índio!”, afirmou o servidor público, exigindo a apresentação da carteirinha de indígena.
O vídeo foi divulgado nesta terça-feira pela líder indígena brasileira, Sônia Guajajara, que acusou o ato de “racismo”. Sônia disse que o indígena é Merong Kamakã, que está na retomada junto ao povo Xokleng, em São Francisco de Paula.
“Na fala racista do tal fiscal está claro o assimilacionismo que vem impregnado como resultado da invasão de 1500 e posterior “colonização” e principalmente permeado por discursos racistas e excludentes que o atual governo grnocida dissemina”, escreveu ela.
A líder indígena acrescenta: “Sobrevivemos a 521 anos de resistência, de luta por nosso direito de existir e por nossos territórios, e continuaremos lutando por nossos povos, por nossas vidas, pelo nosso direito de ir e vir nesse país que ancestralmente é nosso por direito. Por isso, repudiamos a todo e qualquer ataque de racismo a nossos parentes e exigimos que a justiça seja feita”.
Prefeitura lamenta o episódio
Em nota oficial encaminhada pela Assessoria de Comunicação, a Prefeitura de Gramado lamenta o episódio. De acordo com a nota, foram feitas duas abordagens, uma pelo fiscal da Fazenda, que resultou no vídeo, e outra por servidor da Secretaria da Cultura, que esclareceu a situação junto ao indígena. “Lamentamos profundamente que episódios assim venham a ocorrer em nossa cidade e medidas administrativas serão tomadas com relação ao servidor responsável pela primeira abordagem ao indígena”, diz a nota.
A Prefeitura diz que “Gramado respeita e valoriza a cultura indígena. Não à toa um espaço exclusivo para comercialização do artesanato próprio da etnia, com doze casinhas características, foi construído em 2016 junto ao Lago Negro, o mais visitado ponto turístico da cidade. Esse ponto é 100% gerido e destinado aos indígenas”.
A nota cita, ainda, que na ocasião da entrega do espaço, em 2016, “os representantes dos povos indígenas de cinco localidades diferentes assinaram acordo que os comprometia a fazer a gestão e o controle do espaço cedido, para que houvesse rodízio sempre que mais indígenas de outros locais viessem para o município durante o ano. Algo que nunca ocorreu.”
Conforme a nota, estão ocorrendo conversações “com a Fundação Nacional do Índio, com a Procuradoria da República e com Prefeitura de Gramado a fim de regularizar a situação, bem como definir políticas públicas voltadas à valorização da cultura indígena na cidade”.